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07 de Novembro, 2019

Como aprender a ouvir a voz de Deus?

Um momento onde Deus nos toca pessoalmente

Foto: Juliana Dorigo

 

Falar de um tema que necessita de tempo, paciência, meditação e reflexão numa época tão contraditória, a era do imediatismo, é um grande desafio. Vivemos a cultura do “quanto mais rápido, melhor!”. As redes sociais nos estimulam muitas vezes a uma participação impessoal, sem reflexão e formação de ideia. Precisam-se responder as muitas mensagens que chegam principalmente por meio do WhatsApp. Algumas simplesmente como um diálogo de perguntas e respostas, outras simplesmente para desejar um ‘bom dia’ ou ‘boa noite’ e, pela grande quantidade que chegam… muitas vezes, recebem de nossa parte uma resposta automática.

Quem nunca deixou de ler mensagens que chegaram ao seu celular ou smartphone…?

Apesar desta corrida vertiginosa, Deus, continua a fazer “chamadas”, pois, segundo Amedeo Cencini[1], Ele é o eterno ‘chamante’, e, se Deus é um eterno chamante, com certeza existem os eternos “chamados”. Ainda hoje convida muitos a uma vida de doação total na vida consagrada.

Deus é criativo, nunca se repete, por isso é necessário estar atentos à chamada do Senhor, que se comunica com sinais e mensagens no cotidiano de cada indivíduo.

Então, surge a pergunta: Como discernir, em meio a tantos ruídos do tempo atual, a voz de Deus, o aceno de Deus no dia a dia ou, mais ainda, para uma vocação especifica?

Encontro com cristo

Para uma decisão vocacional, deve-se supor sempre um encontro com Cristo, um momento onde Deus nos toca pessoalmente, seja por uma palavra, um acontecimento, por coisas simples ou extraordinárias. Deus sabe como quer interpelar com o seu escolhido. Sim, escolhido, pois a primeira verdade é esta: vocação é um dom de Deus, é graça e não merecimento.

E nós somos testemunhas desta verdade quando aprendemos que Pedro foi escolhido para ser o chefe da Igreja, não apesar de suas fraquezas, mas justamente por causa delas. Negou Jesus, e mesmo assim, foi o amado e escolhido para testemunhar o amor misericordioso do mestre. Também se procurarmos na literatura dos santos, veremos quantos que até duvidaram do chamado por estarem conscientes de suas limitações. Por tanto, não tem muito que explicar, o porquê Deus chama. É simplesmente graça!

A questão vem justamente em como perceber e corresponder a este chamado, pois dele depende minha felicidade, não sem cruzes, sofrimentos e crises que fazem parte de nossa vida. Momentos de crise descreve Amedeo Cencini[2], são “horas de Deus”.

Caminho vocacional

Uma vocação é uma escolha, e sempre que fazemos uma escolha, temos a possibilidade de errar. Por isso é importante um caminho formativo. Quando uma comunidade, por exemplo, acolhe uma pessoa, não pode ter a certeza que a escolha vocacional foi certa. Por isso, precisa traçar o caminho vocacional e o ideal é que a pessoa tenha ocasiões e condições em que ela mesma faça o seu discernimento.

Em Schoenstatt, temos alguns meios que podem colaborar: a autoeducação, o descobrir e avançar no conhecimento de nosso mundo interior, o que se passa dentro dele. Santo Agostinho dizia que o que ele procurava fora, estava dentro dele, e a vocação toca nessas dimensões, da felicidade, da santidade e do amor.

Divina Providência

E, sem dúvida, a chave mestra desta aprendizagem, é a fé prática na Divina Providência. Isto é, viver da verdade: “nada acontece por acaso, tudo vem da bondade de Deus!”. Em todas as situações, mesmo nas mais complicadas, pensar: “Deus me colocou nesta situação, então está bem assim!” Tudo é plano de Deus!

Nosso Pai e fundador nos dá as pistas. Ele disse em 1951 em um Retiro para sacerdotes na Marienau, Schoenstatt:

“Os que passaram pela minha escola não devem distinguir-se por seus grandes conhecimentos, mas como filhos da fé na Providencia. Com que clareza São Paulo reconheceu tudo isto! Para ele vigora a lei da porta aberta.

Queremos ir para onde Deus nos abre a porta. É nisto que consiste a fé prática na Providencia. Seu elemento central é: Deus me fala através das circunstancias, por isso devo tornar-me intérprete dos sinais.

(…) Precisamos aprofundar a convicção de que nossa pessoa e nosso destino estão nas mãos de Deus. Deus conduz tudo de forma a realizar o plano que traçou para mim e para nossa Família. ”[3]

E continua: “Como se manifesta esta clarividência no dia a dia?

  1. Queremos aprender na fé, a reconhecer Deus em todas as coisas, a descobri-lo como causa primeira por trás de todas as causas segundas. Isso deve transformar-se num fio condutor.
  2. Queremos falar amorosamente com Deus em todas as situações.
  3. Queremos oferecer-lhe sacrifícios na fé e no amor.

É nisto que consiste a santidade de todos os dias: Procurar, encontrar e amar Deus em todas as coisas e pessoas. Os fugitivos de Deus devem transformar-se em apaixonados por Deus. Santo é quem vive santamente. Não fantasiar a santidade, mas comer, dormir, falar santamente. ”[4]

Se seguirmos estes conselhos de nosso Pai e fundador, com certeza podemos olhar para o futuro. “E, olhar para o futuro, é sinal de inteligência crente e realista, positiva e otimista. É compreender que a história está nas mãos de Deus.” [5]

Mistério de luz

Amedeo Cencini chama isto de abertura para o sentido do mistério. Nossa vida é um mistério e não um enigma. O mistério é cheio de luz. Deus é mistério incompreensível porque é cheio de luz, porque nele há um excesso de luminosidade.

Em concordância com o segundo ponto que nosso Pai e fundador nos apresenta acima, ele diz que a oração é um modo por excelência de aprender a contemplar o mistério, a olhar Deus, a deixar-se olhar por ele, deixar envolver-se por seu olhar luminoso que ilumina todas as realidades da nossa vida, também aquelas que parecem impossíveis de compreender, como a dor, a morte, os fracassos, as injustiças, o amanhã, as crises.

Maria é modelo de fé

Não poderia terminar, sem apontar aquela que pode nos ajudar a ter essa perspicácia em descobrir Deus em todos os momentos de nossa vida: Maria.

Ela nos é modelo de fé prática na Divina Providência, da vida de oração e oferecimento de sacrifícios na fé e no amor.

 

Foto: Juliana Dorigo

 

Referências:

[1] CENCINI, Amedeo. Abraçar o futuro com esperança: O amanhã da vida consagrada. São Paulo: Paulinas, 2019. Tradução: Jaime A. Clasen.

[2] CENCINI, Amedeo. A hora de Deus: A Crise Na Vida Cristã. São Paulo: Paulus, 2011.

[3] WOLF, Peter. Chamado por Deus, consagrado a Deus, enviado por Deus: Textos escolhidos do P. José Kentenich sobre o sacerdócio. 2. ed. Santa Maria: Sociedade Mãe e Rainha, 2009. Tradução: Ir. Maria da Graça Sales Henriques.

[4]  Ibidem

[5] CENCINI, Amedeo. Abraçar o futuro com esperança: O amanhã da vida consagrada. São Paulo: Paulinas, 2019. Tradução: Jaime A. Clasen.

Por: Ir. M. Sandra Regina Netto